Azul cobalto, azulejos e memória

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro - Arquiteto 
13 de outubro de 2013 

    Há alguns muitos anos eu passava pela Rua do Lavradio procurando, como de tempos em tempos o fazia, algum móvel usado ou qualquer achado antigo imperdível, num dos inúmeros brechós ali instalados desde priscas eras.

Nobre rua dos tempos coloniais, aberta pelo Vice Rei Marquês do Lavradio. Era esta rua que eu atravessava um dia, ansioso por escapar dela, quando ocorreu então um destes momentos da vida no qual tudo de repente se transforma, se transfigura e sai de órbita. Seria uma epifania? Uma descoberta? Um encantamento? Tudo isso junto? 

    Com imensa alegria vi ressurgir do ar grisalho da própria rua, uma trégua, um clarão de vida, um relâmpago de esperança, a expectativa de um porvir. Um milagre. Meu campo de visão foi tomado por uma cor azul esplêndida e me vi subitamente envolvido por este rasgo de luz azulada que, como uma nuvem, emergia do cinza que me dominara por todo o percurso da rua. Uma onda azul cobalto, cor que descobri menino quando estudava pintura com uma professora francesa numa pequena cidade da Zona da Mata Mineira. Era a mesma cor que voltava, saindo do pequeno tubo de tinta Águia de antigamente e indo colorir uma fachada da Rua do Lavradio. O número não me esqueci desde então: 13. Estava gravado numa pequena placa esmaltada do mesmo azul, sobre a porta.

 

    Mas eu falava do encantamento que me tomara a partir da visão do prédio número 13, na realidade 13 e 15, pois se trata de edificação única, com duas unidades distintas, como gêmeos univitelinos -  uma vez que iguais - com gradis caprichosos em ferro fundido que enfeitavam as pequenas sacadas do sobrado imponente de três andares. Gradis que no último andar se transmutavam em ondulado suave, raramente visto em outros prédios e que fizeram deste exemplar arquitetônico emergido milagrosamente da rua, um elemento único, singular, ímpar, notável, inesquecível. 

 

    Falava da antiguidade do prédio, hoje não mais ameaçado de destruição, pois faz parte dos bens protegidos da cidade. Falava do prédio cujo proprietário mais nobre foi o Visconde de Itaborahy, ministro da Marinha do Império Brasileiro, fundador do Banco do Brasil cujas iniciais encimam o edifício: JJRT - Joaquim José Rodrigues Torres. E também: 1874, data provável da construção, passados 140 anos já. Falava deste prédio encantador que saíra como por encanto do meu pequeno tubo de tinta cobalto diretamente para a Rua do Lavradio, cerca de meio século atrás. Seis janelas por andar, circundadas por cantarias e todo o resto são os maravilhosos ladrilhos esmaltados cujo percurso não acabou ainda.

 

    Ladrilhos eternos, como eterno para mim é o prédio número 13 da Rua do Lavradio e sua fachada azul; eternas são as ruas que nos testemunham passar pelo tempo, sem cessar como o rio de Heródoto; eternas são as cidades cheias de lembranças e de memórias nossas guardadas para nós e para o que virá depois.